As “Contas Furadas” da “Pedra Furada”…

Featured

Estou no México, mas Portugal continua a “rodar” por aqui, dentro de mim

Desde há muito que, nos regressos a Portugal, de uma qualquer viagem, em particular de avião, e que começava a aproximação para a aterragem, que me ocorria pensar vendo a extraordinária paisagem em dia limpo: - Isto é de facto um fabuloso sítio para “construir um pais” mas… é preciso fazê-lo!…  Mantenho a ideia quanto mais viagens se vão acumulando.

Mantenho-a pelo sentir pelo sentir do “desaproveitamento” dos muitos recursos que temos e em que apenas imaginação, vontade, e orgulho em preservar e tirar proveitos, fazendo pagar o que o vale, bastariam para mudar muita coisa, em concreto a nossa débil economia em carência urgente dessa tal “imaginação”.

Viajar é também isto, ver o que os outros fazem bem, comparar, aprender o bom, e adaptar o possível no que é nosso.

Também no México, essa sensação se foi confirmando, em pequenas histórias, constatações, pensamentos do viajante solitário, a deixarem por vezes um sentimento de “desgosto” na memória de factos passados, e a velha questão do “porque não fazemos melhor”?

E de histórias dessas, lembranças, fica uma de entre muitas.

Veio-me ao pensamento enquanto visitava as minhas primeiras “Ruínas Mayas” em Tulum, Yucatán.

Nos meus princípios de trabalho a sério, 1975, cinema, filme “O Princípio da Sabedoria” do realizador António de Macedo, utilizámos como um dos cenários um local chamado “A Pedra Furada”, na zona de Pêro Pinheiro, próximo de Lisboa.

Na época achei o local fabuloso, e sempre me ficou a vontade de lá voltar, sozinho, para fazer as “minhas fotos”.

Tratava-se de um local insólito pelo conjunto de formações calcárias, erodidas pelos ventos, e como que nascidas ali por esses acasos estranhos da natureza. Em volta, não muito longe, apenas prédios, uma povoação.

Revi muitas vezes as fotos feitas nessa época, e a vontade de reexplorar o sítio voltava.

Há cerca de dois anos aconteceu, pelo acaso de um casamento na zona.

Na manhã do dia seguinte lembro-me que devemos estar na zona, e pergunto no hotel como chegar à “Pedra Furada”.

Nada! “Ni idea” como se diz por aqui. As recepcionistas olharam para mim como se lhes perguntasse por um local na China. Nunca tinham ouvido falar, não dispunham da mais mínima informação sobre o que merecesse ser visitado por ali.

Parto à “sorte” do explorador teimoso com a ideia fixa de descobrir o objectivo.

Muitas paragens, muitas perguntas, respostas a zero, ninguém conhecia.

Por fim um senhor que diz: – Já passaram por lá. Volte atrás, vá com atenção, e vai encontrar à sua direita.

Eureka!

De facto, já lá tínhamos passado duas vezes mas sem nada ver, sem nada que chamasse a atenção.

Agora, alerta, descubro e estaciono e … é a desilusão mais absoluta para um sonho de anos. 

Um painel do “Instituto de Conservação da Natureza”, informando sobre espécies animais e botânicas únicas por ali, totalmente em “frangalhos”, quase ilegível. Mato altíssimo a cobrir praticamente tudo, e a não permitir ter a certeza de que de facto estávamos no lugar certo.

Lixo, muito, e…um caminho mais ou menos praticável seguindo mato dentro.

Finalmente descubro algumas rochas que me permitem confirmar estar no lugar certo.

Mas … aquilo que queria reencontrar, as formações rochosas mais espectaculares, estavam impossíveis de ver, de tal forma encobertas.

Trepando a uma, conseguimos confirmar que lá estavam, mas inacessíveis, e impossíveis para uma foto que valesse o sonho e projecto de uns anos largos.

Fiquei-me pela fotografia “diário” a marcar a passagem por ali.

Acho que disse muitos palavrões ao ir-me embora, pensando nos “porquês”, no injustificado de ninguém se dar ao trabalho de limpar o local, conservá-lo, e deixá-lo bem visível e indicado. Tirar partido turístico, incluí-lo em guias do que visitar.

Aquilo podia dar dinheiro, o acesso ser pago, alugado como cenário. Mais uns “trocos” para um país em carência urgente.

A nossa riqueza turística pode ser rentabilizada em imensas coisas, com a tal imaginação, trabalho e orgulho no que temos.

Aqui no México acontece exactamente o oposto. A mais pequena fonte de rendimento turístico estimula-lhes a imaginação, tiram partido e ganham uns “pesos”.

Gostaria muito que esse “motor” arrancasse de vez, e em força, também em Portugal. O tal pensamento sobre “o construir um pais”!…

Os nossos governantes precisam de viajar de outra forma. Não apenas para se mostrarem nas cerimónias que prestigiam o “ego”, ou irem ás compras, mas para aprender, observar, reflectir, e regressarem com a vontade de colocar no nosso terreno muito do que os outros fazem, já descobriram a “receita”, e basta aplicá-la bem.

Nem em tudo temos que ser originais. Adaptar apenas, às vezes chega, e faz perder menos tempo.

Ficam umas fotos da “memória boa” e outras da “memória má”. Estas últimas teria sido muito bom não terem sido possíveis.

E fica o acreditar de sempre em que estamos a mudar, a perceber a pouco e pouco, e que iremos ter um dia esse “Pais de Sonho”! … mas às vezes não é fácil J

"O Princípio da Sabedoria" - António Macedo - 12/1974

Fotografar no México_Fotografar o México

Featured

Uma espécie de introspecção de um fotógrafo.

Uma espécie de de conselhos ou sugestões aos viajantes com a “doença” da fotografia que vêm para este, ou outro canto do mundo, sempre com uma máquina fotográfica como companhia.

Cheguei ao México a 15/12/2013.

No último ano passado em Portugal, quase nada fotografara, ou muito pouco.

O que possuo de material desse ano são sobretudo imagens feitas com o telemóvel que vão contando o tempo e os lugares.
Imagens para o meu “diário fotográfico”. Notas.
Muitas sem preocupações estéticas. Apenas registos do que ia passando, acontecendo.

Tornei-me, e continuo, um apaixonado dessa ferramenta de notas, um “Moleskine” do fotógrafo.

Mas, pegar na “câmara pesada” tornara-se difícil. Faltavam estímulos. O velho “vício” hibernara.

De repente, um “de repente” longo como são alguns, estava no México.

Saía do aeroporto em Cancún, chovia chuva quente, imensa, o dilúvio tropical.
Já o tinha experimentado mas não recordava exactamente como era.
De repente também, o “clic”, esse, de apetecer começar a fotografar tudo, a ver muitas imagens possíveis para onde quer que olhasse.
Cores, muitas, gente diferente, atitudes, um movimento imparável, todo um mundo novo que apenas começava a descobrir e me trazia de volta a tal “doença” da fotografia.

Agora, mais de seis meses passados por cá, as imagens entretanto acumuladas são já milhares, na maioria ainda sem destino, a precisarem de horas de edição e com vários projectos possíveis de construir a partir delas.
Mas o “clic” continua . Todos os dias quando saio a “máquina pesada” vai comigo.
Isto não tem fim para os olhos de um fotógrafo.

Falando agora um pouco de “Fotografar no México”

Havia muito que não sentia isto, o fácil que pode ser fotografar.
Em particular, num país sobre o qual nos meteram todos os medos possíveis em todas as conversas que antecederam a partida.
Porquê não ir para um pais mais calmo, mais seguro!?

Tenho esse defeito desde pequeno. Seguir muitas vezes em direcção à “asneira” avisada para perceber, por mim, se é, ou não é.

E correr os respectivos riscos e medos.
Depois julgo o que vi ou senti, e pago a respectiva “factura” se tiver que ser.

México não foi asneira, e quando me refiro ao “fácil fotografar por cá”, falo em concreto da fotografia de rua, de pessoas, de situações.
Daquela fotografia que é mais difícil, complicada, ou eventualmente perigosa de praticar.
Não estamos na calma de um estúdio, o território não é nosso, somos normalmente intrusos.

Apesar de ter viajado por vários lugares deste mundo e respectivas diversidades, cheguei com as vivências mais recentes de uma Europa dita civilizada e, sobretudo, do Portugal actual.

Nestes, a fotografia de rua e particularmente a que retrata pessoas, situações, pouco tem a ver com os meus começos nos anos setenta.
Tornou-se, nos tais lugares “civilizados” do mundo, prática difícil, objecto de muitas situações desagradáveis, em consequência dessa obsessão do direito à imagem, à propriedade, regulamentada à minúcia, com casos em tribunal, etc.

Não nego que muitos fotógrafos terão contribuído para que isso acontecesse pela forma como exercem o ofício.

Passei a fotografar imensa gente de costas, sem rosto. Outra forma de retrato.
Os arquivos do futuro vão estar cheios de fotografias de pessoas sem rosto.

Mas, por aqui, regressei ao que não fazia há muito, fotografar gente de frente, guardar os olhares, porque os olhos contam histórias.
Retratar sem teleobjectiva muitas vezes, conseguir ter sorrisos de volta depois do “clic”, conversar, conhecer gente e ficar mais rico por dentro.

Obviamente que isto não é um dado adquirido, chegar, ver e fotografar.

Exige estratégias, muita paciência por vezes, preparar uma abordagem, deixar para trás muitas imagens que não é oportuno forçar, correr alguns riscos.
As imagens que se perdem são implícitas ao próprio ofício ou “hobbie” do fotografo, como o peixe ou caça que falhámos.
Outras estão na frente.

As melhores serão sempre aquelas que ficaram no cérebro e não conseguimos concretizar. Mas dessas nunca ninguém vai saber. São um outro arquivo do fotógrafo.

Faz-nos continuar o “lá para a frente estão outras imagens, outras oportunidades”. Há apenas que prosseguir a caminhada.

Eu sou daqueles que caminham por horas infinitas. Na noite muitas vezes.
Adoro essa luz de final de dia e luzes a acenderem-se, e depois também o esvaziar de espaços que a noite trás, o teatro que fica sem actores a pouco e pouco. Sobram os técnicos, os tipos do lixo, os policias, os vagabundos e uns quantos como eu.

Voltando às fotos e a como concretizá-las.

Nunca uso a máquina como uma arma, como algo que tenho o direito de colocar sobre o nariz de alguém como se a pessoa fosse um objecto inanimado à minha disposição de artista.

Um “não” de alguém é um “não” a respeitar. A fotografia pressupõe respeito pelo outro. Seja ele um engravatado de nariz no ar, ou um tipo que dorme na rua.

Pressupõe o respeito pela “vida”.

Este Blog chama-se “Make Photos not War” não por um acaso, mas porque define aquilo que existe por dentro da minha fotografia.

As imagens servem para a reflexão à posteriori.
Sobre “eles”, sobre “nós”. E podem ser de pessoas, objectos, paisagens.
Fizémo-las, guardámo-las, porque estivemos lá.

Fotografei já imensas coisas neste pais. Ficarão muitas mais por fazer. Não acaba.

Ao realizá-las não tive ainda qualquer problema grave, inevitável aparentemente com todos os medos que me meteram, qualquer episódio que mereça um verdadeiro conto de aventuras.

Claro, já arrisquei várias vezes.
Correr riscos faz parte do sair à rua. Na companhia de uma máquina fotográfica aumenta um pouco.

Amigos meus dizem: – Um dia lixas-te e divagam…

Rindo, costumo citar uma das minhas regras de base.

Se queres mesmo essa imagem, primeiro dispara e depois resolves o problema se tiver que ser. Ao contrário nunca a irás ter!

Mas há tipos que falariam deste tema muito melhor do que eu. Fotógrafos de guerra, repórteres de jornais do quotidiano por exemplo.

E agora, umas quantas regras básicas para o viajante nestas andanças e que não se satisfaz com os “selfies” ou fotografias tipo “postal” que se compram no quiosque. Aquele que tem mesmo o “bichinho” fotográfico e quer mais das suas imagens.

Antecipar: (E aqui refiro-me a situações que envolvem concretamente pessoas).

Muitas vezes vemos a imagem possível muitos metros antes de lá chegarmos.
A máquina já deve estar regulada, com luz medida, ISO controlado, etc, antes de estarmos sobre ao assunto.
O importante é definir como nos aproximamos, chegar, enquadrar e disparar. Por vezes saber também sorrir no momento certo.
Mas nunca, nunca, gastar tempo frente ao “assunto” a fazer regulações infinitas, perdendo a concentração ou empatia.

Agradecer ao “autofocus”, essa fabulosa facilidade das câmaras actuais.

Descobrir imagens ao longe: Um fotografo caminha, olha, vê ao pé e ao longe. Volta-se para trás muitas vezes, descobrindo a foto que ia perder.

Ter consciência de que, (e aí o México é um exemplo, nomeadamente em cidades em que os indíos Mayas abundam como parte da população local, mas não só aí), não somos os homens invisíveis que todos os fotógrafos desejariam ser.
Somos detectados e observados a dezenas de metros, e muitos já estão preparados para se esconderem ou taparem a cara ao nosso menor movimento para lhes apontar a máquina.
Não gostam de ser fotografados e estão no seu direito.
Em contrapartida acham que temos disponibilidade para lhes comprar tudo o que nos queiram vender. São donos de uma produção artesanal fabulosa em beleza.

Nestes casos em que dialogar não será fácil, a regra possível é, aprender a deambular como se nada fosse, como se não tivéssemos visto que já nos viram, e conduzir os nossos passos para o ângulo certo, imprevisível para eles, quando já nos esqueceram para se concentrarem noutros.

Mas … às vezes não há mais fotógrafos nem chamadas de atenção para eles e, a foto não se fez.

Saber pedir autorização quando só assim é possível fazer o que queremos.
Se a resposta for não, respeitá-la sem insistir.

Falar algo do idioma é uma grande vantagem em qualquer território.
No entanto, falá-lo demasiado bem poderá já não o ser.
Por vezes é bom fazer acreditar que não percebemos exactamente o que dizem, e assim conseguir mudar o rumo a uma conversa que não está a correr bem como queremos.

Aprender a ter olhos à frente e atrás: O fotógrafo desconcentra-se muito facilmente com o que ocorre atrás dele ao ter o olho colado a um visor, e o cérebro a ver e processar o que está a acontecer frente à máquina.
Isso não é bom quando muitas vezes estamos sozinhos, envolvidos por gente, em que nem tudo pode representar um lugar seguro.

Não sei dar receita certa ou infalível para isto. Sofro do mesmo mal. Apenas aprender com o erro e tentar ir desenvolvendo sistemas internos de alerta.

E, a S.ta Verónica dos fotógrafos a velar por nós.

E a Sorte!…essa desconhecida, mas grande amiga.

Não demonstrar nunca medo ou agressividade. “We make photos, not war”! O território é deles, nós somos o intruso e, portanto, o respeito pelo território do outro é absolutamente, e sempre, devido.

Mas gerir o stress ou medo aprende-se com o tempo e com as muitas experiências.

Bem como a consciência do efeito que nós mesmos provocamos nos outros.

Um tipo que fuma cachimbo como eu pode ser uma curiosidade, alguém com interesse ou que faz sorrir. Mas saber guardar o cachimbo para não dar nas vistas também pode ser a atitude a tomar.

Entre uma mulher ou um homem abordando a mesma situação fotográfica poderão existir vantagens ou desvantagens muito grandes.
Há uma enorme diferença e, elas ganham normalmente.

Saber quando é de esquecer a máquina pesada e que dá nas vistas e usar o “maravilhoso” telemóvel que permite imagens impossíveis.
Por exemplo, para conseguir fotografar quem vai ao nosso lado num autocarro, ou à nossa frente no Metro.
Essa ferramenta dá-nos também aquele ar do tonto que faz fotos “recuerdo”, por tudo e por nada, e não é um perigoso profissional.

Aprender a pedir autorização para tirar uma foto, falando sempre e, enquanto dizem que não, e respondemos OK, já disparámos uma e pedimos desculpa.
Com sorte foi a boa!

E, etc, etc, etc,

Poderia continuar a escrever muito mais sobre este “Fotografar no México”.
Apenas abordei uma questão técnica de base e de SEMPRE, a antecipação das regulações da câmara.
O resto são considerações sobre como mover-se por cá, mas também em muitos outros territórios.

Ficam á vossa espera a imensidão de cores, as gentes, paisagens, situações, com que se irão deparar a cada momento.

Boas fotos para os que decidirem o México como destino de viajem.
Boas fotos também para todos aqueles a quem, noutros mundos, estas dicas possam ser de utilidade.

E…um último conselho: Um fotografo é um “chato” como companhia de passeio.
Assim, desliguem-se dos grupos, partam à descoberta sozinhos, ou com companheiro/a que sofra da mesma “paixão”!…

_JMP6819 - Version 2_JMP9594 - Version 2_JMP8105 - Version 2_JMP9750 - Version 2_JMP2183 - Version 2_JMP5839 - Version 3_JMP3237 - Version 2IMG_3471_JMP5362

A Paz, o Pão, Habitação, Saúde, Educação…

Featured

Final de tarde.

Lá fora chove de novo. É sempre assim na Cidade do México, como uma rotina.
Estamos no Verão. As estações do ano são como as nossas em datas, mas não em clima.
Agora deve estar muito calor em Portugal. Por cá faz fresco, não frio.
De manhã, com sorte, o sol aparece, pela tarde o céu torna-se enevoado, pesado, escuro, e com a chegada da noite é praticamente garantido que chove.
O meu “sombrero” torna-se então precioso.
Estive a tomar notas para “posts”a escrever sobre o “desde que cheguei”, sobre as intersecções com o nosso Portugal.
São já muitas as notas. Decido que o melhor é mesmo não me preocupar em dar-lhes uma sequência temporal. Vão saindo conforme a escrita me apetecer.
Agarro numa e sai-me como título as palavras de uma canção do Sérgio Godinho.
Nem todos a conhecerão, mas faz parte do que foram os inícios e memórias do “Portugal Novo”.

Pego apenas na última palavra – Educação.

Não nos diversos sentidos que lhe poderemos atribuir, apenas na “educação cívica”, aquela que nos faz relacionar e interagir com os outros.

Aqui, entro nas minhas primeiras impressões sobre o México, nas primeiras horas, nas inevitáveis comparações com o que ficou para trás, escrevendo um pouco mais sobre algo que já abordava no post anterior.
Das outras palavras deste título, desta canção, escreverei mais tarde.
Todas estão em curso por aqui, para todas este pais trabalha e tenta torná-las numa realidade consolidada.
Mas, a educação, a “cívica”, essa foi uma surpresa, uma constatação imediata, confirmada todos os dias.
Não acredito que a ensinem nas escolas, num pais em que a escolaridade mínima ainda não consegue ser obrigatória.
Está arreigada neste povo por algum motivo que desconheço ainda, vem muito detrás, não se perdeu, e encontra-se em qualquer classe social.
Obviamente há excepções como a qualquer regra.
Sentimo-la na rua quando pedimos uma informação, nos restaurantes e bares, nas lojas ou outros serviços pela forma como somos atendidos, nos transportes públicos onde é frequentíssimo um tipo levantar-se para ceder o lugar a uma mulher. Seguiria em exemplos.
Tudo isto num teatro de rostos sérios, automático e natural.
Porque os mexicanos não têm a extroversão dos brasileiros, por exemplo.
Tudo isto também, servido por um idioma comum a uma imensidão de territórios nesta grande América do Sul, mas em que eles, mexicanos, têm a sua forma particular de o falar, usando expressões que nos fazem sentir bem, como gente, que estão atentos a nós e ao que precisamos, e não esquecidos a fazer sinais para chamar um empregado que insiste em não nos ver.

A frase “must” é, absolutamente, “Con respeto!”, como preâmbulo a qualquer pergunta mais particular.

Mas há imensas para para nos fazer sentir bem: “Me llamo Natalie, para servirles”!, “Que les vaya bien”!, “Un gusto conocer usted”!, “Muy amable”!, “Ahorita mismo”!, “Mi amor”!, “Mi vida”!, … um sem fim.

Adoram os diminutivos como nós, e usam-nos a todo o momento como uma delicadeza no trato.
A somar a estas de uso verbal, as muitas que constam de avisos, de chamadas de atenção, ou simplesmente para vender, melhor dizendo, para motivar a comprar.
Ao escrever isto, ao senti-lo na pele do quotidiano, salta-me o imenso desejo de que o meu país, que já teve “isto”, à sua maneira, o reencontre.
Porque me vem à memória, àquela de que não gosto, o meu último Café em Aveiro, onde ia quase diariamente durante dois anos, e em que cada dia, era como se fosse o primeiro em que lá entrava, em que, mesmo, e apenas, um bom-dia, boa-tarde, ou obrigado, custavam a sair entre dono e empregados. E porquê!?

Acredito, apesar de tudo, sempre, que estamos numa mudança, que um pais não se reconstrói de repente, que vamos reencontrar-nos com os nossos valores bons, que vou ter tempo para assistir ao consolidar dessa mudança.
Porque, como eu, há muitos a desejá-la, há muitos a acreditar no futuro.

E agora?… que fotos vou inventar para ilustrar este escrito!?

Até já.IMG_3816

_JMP6005 - Version 2 _JMP6036 - Version 2

IMG_9222

“Um dia Bom” in México City DF Copa do Mundo_México/Croácia

Featured

Levanto-me uma vez mais e vou à janela ver este México passar na rua.

Um dos muitos Méxicos para contar, tais as diversidades e contrastes deste pais imenso.
Acendo um cachimbo e dedico-me finalmente a recomeçar a escrita interrompida há mais de um ano.
Notas sobre projectos para “posts” havia muitas que foram ficando em cadernos agora longe, em Portugal.
O tempo voou neste último ano, e acabou trazendo-me até aqui.
Seis meses são já “passado” nesta nova realidade. Porém, a sensação a cada hora mais, de que este é um pais interminável para visitar e contar, mantém-se.
Sentir, e escrever depois, é talvez mais difícil do que fotografar.
O sentir de que apenas estamos a passar a outros um pequeno bocado do que vivemos é uma constante para mim.
Ao transferir para o papel, muito do que escrevemos antes na cabeça esvai-se. Apesar de tudo, e como em tudo, esse “bocado” que fica é sempre melhor que o “nada”.
Precisava de um título para isto e acabo por agarrar “Um dia Bom”.
Esse dia foi ontem, 23/06/2014. O México jogava contra a Croácia na Copa do Mundo, ganhou, e eu estava no meio deste povo feliz, festejando com eles, porque a alegria contagia e é bom.
Viajar é também, e sobretudo, isto, o sentir o lugar em que estamos, tentar compreendê-lo, compará-lo com o “donde vimos”, porque a marca das nossas origens e educação é indelével.
Mas fazê-lo sem fundamentalismos de crenças ou ideias, numa total liberdade de pensamento, porque não há verdades adquiridas, porque Bom e Mau são coisas tão relativas, porque tentar perceber os outros nos faz reflectir sobre nós mesmos.
Deixei Portugal por um tempo, não porque não goste do meu pais, um lugar no mundo inquestionavelmente excepcional, mas porque precisava de me renovar por dentro, reencontrar estímulos para continuar a minha fotografia, pôr-me de novo à prova comigo mesmo, sentindo-me vivo, e não, ficando imóvel a queixar-me como muitos, sem nada fazer para mudar.
Portugal vive de um quotidiano de queixas, antes e depois da Revolução, que não é saudável, que se tornou quase atávico, que muito gostaria de não ver no meu povo.
Apesar de tudo, continuo a acreditar que estamos num processo de mutação em curso, e que as novas gerações a vão levar por diante.
Sempre disse que essa não era a minha maneira de “viver Portugal”, que no dia em que sentisse que queixar não era a solução simplesmente sairia para outro lugar, outra realidade.
Assim fiz em 1972, quando uma guerra que não era minha me esperava, e a esperança numa revolução, felizmente acontecida, não se adivinhava no horizonte possível.
Assim refiz agora, para aprender mais de mim mesmo com outros povos, para repensar distanciado o Portugal em que continuo a acreditar, que se irá reencontrar um dia com o muito de bom que tem, aprendendo a dar-lhe o valor devido, projectando-se de novo neste mundo como referência que já foi.
Este México, escolha quase de acaso, foi uma escolha boa para tal. Podia ter acontecido África ou Oriente. Estão em espera.
Havia referências da juventude, uma espécie de chamamento.
As canções da Revolução Mexicana escutadas por horas ao som de whiskies, a leitura do “México Insurrecto” do John Reed. Mais tarde a descoberta de um cinema muito bom que por aqui se faz. O razoável domínio do idioma espanhol a permitir-me uma comunicação fácil.

E ontem foi “Um dia Bom” por cá, como intitulei este post.
Um dia bom é coisa simples. Acordamos, estamos vivos com vontade de o caminhar e continuar para o seguinte, sentimos que a onda humana que nos envolve nos faz sentirmo-nos bem connosco, que nos aceitam como somos, sentimos a alegria dos outros passar para nós, sentimos que há força nessa onda em constante movimento para fazer coisas, exigir coisas.
Não se sente o medo. Sente-se que aprenderam a dominá-lo, a viver com ele, a transformá-lo numa energia de “para a frente”.
E depois, muitos “depois” para escrever, há neste povo uma educação cívica e respeito pelos outros, de uma forma absolutamente natural, à qual quase já não estava habituado.
Porque Portugal, que a tinha desde a mais remota aldeia, a tem deixado esvair-se a pouco e pouco. É bom e bonito voltar a reencontrar esse calor.
Foi muito bom festejar aquela vitória com eles, mexicanos, como se eu daqui fosse, sentindo “quase” a mesma alegria na pele.
Claro que, se Portugal continuasse nesta corrida Copa, o “quase” não seria escrito.
Mas Ganhar e Perder são a vida a ser vivida.
Sobre isto termino, a recordar a propósito a sequência inicial do filme “Match Point” do Woody Allen.

O ZOCALO começa a encher de gente_JMP9955 - Version 2_JMP9588 - Version 2_JMP9582 - Version 2_JMP9635 - Version 2_JMP9629 - Version 2_JMP9667 - Version 2_JMP0057 - Version 2_JMP0091 - Version 2_JMP0182 - Version 2_JMP0011 - Version 2_JMP0117 - Version 2_JMP0227 - Version 2_JMP0076 - Version 2_JMP0269 - Version 2_JMP0310 - Version 2_JMP0302 - Version 2_JMP0285 - Version 2_JMP0343 - Version 2_JMP0360 - Version 2_JMP0442 - Version 2_JMP0232 - Version 2_JMP0399 - Version 2

About the sentence “One picture says more than a thousand words”…

Featured

The idea of writing something about that sentence came just after having found, when searching inside my not so well organized files, the photo you can see at the end of this post.

All along these many years shooting photos, or drawing, or painting, I’ve never decided myself to talk much about. Just let people look at them, keeping my silence and accumulating work, the most of it never showed.

But now I started to feel different.

Finding that image I really felt, even if you can like it in a first approach, that it would be totally different if I explained the circumstances and the project behind.

It was at this precise moment that, again, “the sentence” came to my mind, as also the one about “the decisive moment” from Cartier Bresson. I let that for another occasion.

What I want to transmit today, illustrated by this photo, is the idea that we should never be “fundamentalist” about nothing, that there are no absolute truth, that all rules should be disobeyed one day for achieving something where the rules does not make sense, that finally, our minds and our feelings should be our masters, after learning and listening from all the possible sides of knowledge.

Coming back to the today’s picture.

I produced this image for a project, that I never really finished, about dogs for blind people, in the specialized training school Associação Beira Aguieira de Apoio ao Deficiente Visual, in Mortágua – Portugal.

It was not a commission, just one more project I decided , and, I love dogs.

Now, some years passed, looking again to the images stored in my computer and seeing this one I felt, that, if I had to choose one as the “iconic” to represent the project, it would be that one.

Why? – Just because it’s “out of focus”!…

Being out of focus the image transmits, probably, what someone approaching blindness still sees before the total darkness.

Simple.

But, if I had not give this explanation, probably you would have see the photo with different interpretations and less emotive power. Now I focused you on it and the circumstances.

Sometimes we really need to talk about what we produced, other times not. Keep the silence.

No definitive rules!…

PS – After searching a bit in the Internet I discovered that the original sentence is from CONFUCIO!…Geting old!…

Image

From my photo-diaries! What about the relation between Paris, Krishna’s and…a pair of Spanish boots?…

2013 is on the road for a while now and I could not find my time until today to write even a short new post.

That’s life, that’s this crazy dimension called Time that does not stop, even if photographers have the illusion to have done it for a moment.

But I still want that blog alive and, so,  let’s go for another photo-story.

That one came to me when opening old boxes from my beginning times, and made me smile with the memories about how they “happened”.

It was the 70’s and, as I told you before, I went to Paris for the explained reasons and specially focused in study photography.

I was the only foreign student in my school, speaking a very poor French, with no friends yet, passing the most of my weekends alone, walking around in the city to familiarize with, and my camera as my companion.

I was usually dressed in blue jeans, a leather old jacket and…a pair of Spanish black boots, that I loved.

Well, a sort of informal uniform, completed by the camera on my shoulder. My “style”!…

Remains from that time my addiction to a Lewis pair of jeans.

The contact with the photos shown today confirmed me also the conviction that my photo-work, as for probably the most of photographers, is above all a big diary containing our lives in small pieces inside each photo, goods and bad ones.

During those weekends, alone, I was always looking for something new to visit, discover and that could be interesting for shooting. Also testing myself with manners to how approach people or being introduced somewhere. Difficult thing, a battle to win inside yourself, specially being shy and a lonely guy as I was.

Some days before, in the subway,  Krishna’s people were distributing leaflets to publicize and invite to their cult. I got one.

The next Saturday I decided to go there and ask permission to make some photos.  I had to discuss a moment with the “strange personage” that was the public relations of the place, but I could get the authorisation to enter and use my camera.

I can’t remember no more the kind of story I invented to convince him. Some years latter, working in cinema I had the chance to have an “excellent teacher” about how to enter in places and make photos that looks impossible to approach.

One other day I will talk about that and my best friend from ever “this teacher”!…

So, authorized to go inside of the “temple” the only condition was that…my Spanish boots should remain outside of the “temple space”, in fact a small apartment, somewhere Avenue de la Grande Armée.

I spent four or five hours with them inside this space trying to make myself the most invisible as possible.

I could assist to all the preparations for the ceremonies and the evolution all along those hours, passing from the silence and calm to a progressive growing of chants, prays and drum’s sound until a climax where I was sometimes involved in such a manner that I was obliged to control me for not forget the controls of my camera. I was there as a “reporter” after all.

As I did not knew almost nothing about them everything was a discover to register.

The thing became really spectacular when the chants, prays and drums got louder and louder in such a small place.

For the first time in my life I could feel the power of music, and specially the power of the sound of percussion instruments, making you the effect of a sort of hypnosis drug that almost stops your normal thinking.

With no autofocus cameras yet, people dancing and singing all around, from children to old people, I was trying my best to control light, focus and frame.

I still can remember that, in the middle of all that convulsive ambience, and from time to time, I thought about if my “Spanish boots” were still there waiting for me when coming outside or simply have been stolen!…

And that because, the mix of people inside was so different, with some looking very kind and peaceful, when others had faces like guys that could have been released recently from some prison.

At the end everything passed with no problems at all and I even could have lunch with them, eating an absolutely “terrible” vegetarian meal that I took with always a smile in my face, as if I was in one “gourmet Parisian restaurant”.

And…finally, going outside, my beautiful Spanish boots were still waiting for me, ready for some more miles of walk in Paris streets.

It was really good to be again in those streets, breath a bit of fresh air, to ear the “possible” silence of Paris avenues.

Of course, arriving to my small room, lab corner installed, I started immediately to develop the films, anxious about to see what was inside.

Black and white film as almost always at that time, on my “trusty” KODAK TRI – X pushed to 1600 ISO.

Surprise! Some photos were not so bad and just a few out of focus.

I think I felt happy that evening dreaming that, maybe, I could become a photographer one day.

 

Those are simple scans from the paper prints made at that time, with all the defects of a “printer beginner”… A lot still to learn about the magic of interpret a photo when printing.

Krishna_1 - Version 2 Krishna_2 - Version 2 Krishna_4 - Version 2 Krishna_3 - Version 2 Krishna_5 - Version 2 Krishna_5 1 - Version 2 Krishna_6 - Version 2