As “Contas Furadas” da “Pedra Furada”…

Estou no México, mas Portugal continua a “rodar” por aqui, dentro de mim

Desde há muito que, nos regressos a Portugal, de uma qualquer viagem, em particular de avião, e que começava a aproximação para a aterragem, que me ocorria pensar vendo a extraordinária paisagem em dia limpo: – Isto é de facto um fabuloso sítio para “construir um pais” mas… é preciso fazê-lo!…  Mantenho a ideia quanto mais viagens se vão acumulando.

Mantenho-a pelo sentir pelo sentir do “desaproveitamento” dos muitos recursos que temos e em que apenas imaginação, vontade, e orgulho em preservar e tirar proveitos, fazendo pagar o que o vale, bastariam para mudar muita coisa, em concreto a nossa débil economia em carência urgente dessa tal “imaginação”.

Viajar é também isto, ver o que os outros fazem bem, comparar, aprender o bom, e adaptar o possível no que é nosso.

Também no México, essa sensação se foi confirmando, em pequenas histórias, constatações, pensamentos do viajante solitário, a deixarem por vezes um sentimento de “desgosto” na memória de factos passados, e a velha questão do “porque não fazemos melhor”?

E de histórias dessas, lembranças, fica uma de entre muitas.

Veio-me ao pensamento enquanto visitava as minhas primeiras “Ruínas Mayas” em Tulum, Yucatán.

Nos meus princípios de trabalho a sério, 1975, cinema, filme “O Princípio da Sabedoria” do realizador António de Macedo, utilizámos como um dos cenários um local chamado “A Pedra Furada”, na zona de Pêro Pinheiro, próximo de Lisboa.

Na época achei o local fabuloso, e sempre me ficou a vontade de lá voltar, sozinho, para fazer as “minhas fotos”.

Tratava-se de um local insólito pelo conjunto de formações calcárias, erodidas pelos ventos, e como que nascidas ali por esses acasos estranhos da natureza. Em volta, não muito longe, apenas prédios, uma povoação.

Revi muitas vezes as fotos feitas nessa época, e a vontade de reexplorar o sítio voltava.

Há cerca de dois anos aconteceu, pelo acaso de um casamento na zona.

Na manhã do dia seguinte lembro-me que devemos estar na zona, e pergunto no hotel como chegar à “Pedra Furada”.

Nada! “Ni idea” como se diz por aqui. As recepcionistas olharam para mim como se lhes perguntasse por um local na China. Nunca tinham ouvido falar, não dispunham da mais mínima informação sobre o que merecesse ser visitado por ali.

Parto à “sorte” do explorador teimoso com a ideia fixa de descobrir o objectivo.

Muitas paragens, muitas perguntas, respostas a zero, ninguém conhecia.

Por fim um senhor que diz: – Já passaram por lá. Volte atrás, vá com atenção, e vai encontrar à sua direita.

Eureka!

De facto, já lá tínhamos passado duas vezes mas sem nada ver, sem nada que chamasse a atenção.

Agora, alerta, descubro e estaciono e … é a desilusão mais absoluta para um sonho de anos. 

Um painel do “Instituto de Conservação da Natureza”, informando sobre espécies animais e botânicas únicas por ali, totalmente em “frangalhos”, quase ilegível. Mato altíssimo a cobrir praticamente tudo, e a não permitir ter a certeza de que de facto estávamos no lugar certo.

Lixo, muito, e…um caminho mais ou menos praticável seguindo mato dentro.

Finalmente descubro algumas rochas que me permitem confirmar estar no lugar certo.

Mas … aquilo que queria reencontrar, as formações rochosas mais espectaculares, estavam impossíveis de ver, de tal forma encobertas.

Trepando a uma, conseguimos confirmar que lá estavam, mas inacessíveis, e impossíveis para uma foto que valesse o sonho e projecto de uns anos largos.

Fiquei-me pela fotografia “diário” a marcar a passagem por ali.

Acho que disse muitos palavrões ao ir-me embora, pensando nos “porquês”, no injustificado de ninguém se dar ao trabalho de limpar o local, conservá-lo, e deixá-lo bem visível e indicado. Tirar partido turístico, incluí-lo em guias do que visitar.

Aquilo podia dar dinheiro, o acesso ser pago, alugado como cenário. Mais uns “trocos” para um país em carência urgente.

A nossa riqueza turística pode ser rentabilizada em imensas coisas, com a tal imaginação, trabalho e orgulho no que temos.

Aqui no México acontece exactamente o oposto. A mais pequena fonte de rendimento turístico estimula-lhes a imaginação, tiram partido e ganham uns “pesos”.

Gostaria muito que esse “motor” arrancasse de vez, e em força, também em Portugal. O tal pensamento sobre “o construir um pais”!…

Os nossos governantes precisam de viajar de outra forma. Não apenas para se mostrarem nas cerimónias que prestigiam o “ego”, ou irem ás compras, mas para aprender, observar, reflectir, e regressarem com a vontade de colocar no nosso terreno muito do que os outros fazem, já descobriram a “receita”, e basta aplicá-la bem.

Nem em tudo temos que ser originais. Adaptar apenas, às vezes chega, e faz perder menos tempo.

Ficam umas fotos da “memória boa” e outras da “memória má”. Estas últimas teria sido muito bom não terem sido possíveis.

E fica o acreditar de sempre em que estamos a mudar, a perceber a pouco e pouco, e que iremos ter um dia esse “Pais de Sonho”! … mas às vezes não é fácil J

"O Princípio da Sabedoria" - António Macedo - 12/1974

6 thoughts on “As “Contas Furadas” da “Pedra Furada”…

  1. Umas das coisas que me dá mais prazer quando aqui venho, para além de te ler, que é sempre muito bom, é descobrir fotos tuas que nunca tinha visto e que nem imaginava que existiam. E mais uma vez, confirmar esse talento enorme. Adoro as “boas”. As “más”, enfim, servem de lição.*

  2. Muito fixe… Como sempre. E eu aqui a cair de sono a ler te. Num sitio bem porreiro chamado ubud. Capital cultural de Bali.

    Anyway… so para deixar um comentário que já andava pa te s te dizer há alguns posts que é não PR só fotos no fim mas alimentar sempre com pelo menos uma foto logo ao pé do título. Chama mais a atenção e cativa o leitor.

    Beijooo

  3. Pingback: Um “Negócio da China” no México!… | Make Photos Not War

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